sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
domingo, 6 de janeiro de 2008
REPOSIÇÃO
As pedras brancas da calçada da minha rua
Roubei girassóis da varanda da casa da minha tia.
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
AMPHORA
a quem o não saiba
que este texto
tem matura idade
e
culpa minha
nenhuma
Para que conste

Amphora
Encontrámos aqui o vinho, o gelo, o copo, o silêncio,
num lugar ermo de terra feito
e madeira velha por tempo:
o ressuscitar dos nossos sentidos e voz;
A escrita germinando
nos degraus húmidos do resistir.
Não há inverno nem verão. Ninguém fala.
Escuta-se o rumor do vento, se o vento sopra,
o silêncio da casa, da amphora.
E há vinho: natureza fresca.
E há mel, recolhido cuidadosamente no ano anterior.
Encontrámos aqui o vinho, o gelo, o copo, o corpo.
E fizemos amor.
*
Que casa querer depois desta casa?
Que corpo desejar depois do corpo ali?
*
Molhámos os corpos nos riachos
gerados no interior da neve e da montanha,
irmanados naquela mútua recompensa de gurgitares:
nós e as fontes; nós e as pequenas quedas de água,
no verdadeiro silêncio da terra.
*
Não havia memória.
Havia chão.
*
Às vezes, sentávamo-nos nas gotas de orvalho,
suspensas na relva
e revíamo-nos nos espelhos das nuvens dispersas,
vagueando em sonhos.
Adormecíamos, por vezes.
Acordávamos tão leves...
*
O frio não era motivo de abandono.
Habitávamos a casa, as réstias de sol,
a luz matinal coada na limpidez do espaço.
Fazíamos o jogo paciente da aranha tecendo a sua rede.
Seguíamos-lhe os movimentos.
Apreciávamos a lentidão das suas esperas.
Sentíamos pena das suas vítimas.
Como libertá-las, sem quebrarmos os ténues braçosda prisão?
*
Era o equilíbrio natural que absorvíamos.
Amávamos. Conjugados no todo de um ambiente primordial.
E quem somos, para podermos quebrar o sossego da harmonia,
construída em todos os recantos
deste terno e pequeno mundo?
Sentávamo-nos, por vezes, no musgo.
Na frescura da terra semeada de pinheiros.
Viajávamos, depois, aos confins do eco
e nossas vozes regressavam mais quentes.
De amor.
*
E quando a mágoa espreitava
sob um sorriso,
dizias somente:
a noite só vem
quando os olhos se fecham de cansaço.
Antes, é a sempre e repetida loucura
dos encontros sem fim, sem fundo,
no outro lado do mundo.
*
Era a manhã vinha ao nosso encontro.
Em busca de um beijo húmido,
nascido no interior da noite.
Caminhava pela madrugada preguiçosa
e removida das entranhas do desejo.
Amanhecia. Ou eras tu que caminhavas
à procura de um silêncio
envolto em nevoeiro matinal?
*
Respiravas sonhos inteiros
à medida dos teus olhos erguidos
na direcção da luz.
Havia um sol razante no arvoredo.
Um reflexo enorme na tua mão.
E o frio ainda não tinha nascido.
*
Brilhavam auroras nos teus olhos.
Nos teus cabelos batia o vento.
E as searas permaneciam atentas
ao lento declinar da tarde.
Um sentimento natural unia-nos
ao cheiro cinzento da terra.
Como penetrar a penumbra do sol,
sem desperdiçar o tempo da erva?
*
Baixo os olhos à torrente de água que nos liga.
Os teus olhos prendem-se atentos
ao lento declinar da tarde
e espantam-se.
A água não mais é cor de água.
Transporta, num turbilhão de nervos,
nosso sangue,
à procura de repouso
no interior mais fundo da terra.
*
Uníamos o cheiro da terra
ao intenso florir dos nossos olhos,
no espanto natural de termos mãos.
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
QUASE PERFEIÇÃO
que não aconteceu.
que se perdeu.
que escreveu
e não rasgou
partida,
quarta-feira, 11 de julho de 2007
EM LOUVOR DO ACASO E DO ESPANTO
O ESPANTO
Não conseguir dormir (vá lá saber-se o seu porquê),
não resistir àquele filme do Alfredo, do François,
do Roman, do Bresson, da Duras e mais mil nomes
que não me ocorrem.
Voltando ao importante, por agora,
há coisas que não deixam de nos enpantar.
Um record mundial em apenas cem metros,
mesmo que seja numa piscina,
ou um 470 português que sabe velejar
como eu não imagino.
Mas voltando ao mais importante do importante,
o espanto é termos mãos
e capacidade para cozer o barro
e fazer viagens a marte e arredores
e querermos mais e mais ainda
sempre como nos fica bem
e acreditar que é possível transformar
este mundo infeliz (fica bem e devemos)
devemos afirmar todos os dias
a humildade de sermos humanos e reais
com capacidade de sonhar pois sonhar
todos os dias
todos os dias
todos os dias
até ao suspiro final.
(Sem nenhum amen, please!)






