quinta-feira, 15 de maio de 2008

40 POEMAS DO RECANTO DAS LETRAS





"ORIGENS",
Técnica mista e acrílico sobre tela, 81x100 cm
Joaquim Alves, Lisboa,1988






1

RELÍQUIA




por fim

ele disse

teus olhos

de cotovia

é que

me vestem

de alegria




2

MAGIA




de todas as vezes

sempre que a voz

sintonizou a noite

chamaram-lhe

magia

é tudo mentira

sempre foi

e nunca mais será

noite

e magia

roubaram-nos

tudo

tudo

tudo




3

SEGREDO




amanhã

no silêncio

da noite

uma nova

liberdade

vai chegar

é urgente

é preciso

é necessário

para sermos

gente

pessoas

não amanhã

de preferência

hoje




4

POESIA É ARTE




perguntaram-me

por que

não pões

poemas

nas telas

respondi

a poesia

já é

arte




5

ARTE




Arte

não é

o risco

é arriscar

a alma

o coração

o corpo

a mão

arte é viver

profundamente

para além

da normalidade

vigente

arte é ser

não se sabe

muito bem

o quê




6

LOUCURA SEMPRE




ou

se

entra

ou

nunca

se

chega

lá

não

é

não

é

meu

amor é




7

LOUCURA 2




voltei

à neve

ao gelo

ao copo

ao corpo

e

foi

foi

uma

uma

húmida

única

loucura




8

LOUCURA





se

não

fosse

assim

a

vida

tinha-se

perdido




9

IDEAL




o ideal

não existe

mas

quando

existe

um ideal

é preciso

mantê-lo

dar-lhe

água



10

ESPANTO




voltei

ao local

do

costume

e

para espanto meu estavas lá




11

LIMIAR




tudo

começou

lá

num limiar

de esperança

pequenino

trémulo

e cheio

de dúvidas

que deu

frutos




12

INJUSTIÇA




já que tudo o que peço

de tão pequeno

não mereço

vou fazer justiça

com as minhas

fracas mãos

amanhã vou ao mercado

e compro uma espada

à imagem

da que vi

usada

velha

gasta

ferrugenta

e tudo

amanhã

vou matar

a morte




13

PEDIDO




como à noite

não posso falar com o sol

fiz um pedido urgente à lua

tentar pôr ordem na morte

porque é indecente roubar

em dez dias apenas

duas amigas e um amigo

da minha vida

fico à espera de resposta

da senhora dona lua




14

VISÃO




alinhou

os patins

respirou fundo

e lançou-se

quero

experimentar

a beleza

humana

e o anjo

desapareceu




15

LUA




foi

ela

que

ditou

eu

só

escrevi

vós

não

percebeis

nada

de

mim

foi

ela

que

ditou




16

LOBOS




vivem

em

comunidade

e

assim

se

alimentam

de

acordo

com

a

hierarquia




17

ESTRELA



o gato pardo

que anda

pela minha rua

ia a passar

e passou

vi

uma

estrela

e

disse

esta

é

para ti





18

O INFINITO




o infinito não existe

o infinito é um oito deitado

o infinito é o contrário

do que somos

o infinito é uma estátua

antes do terramoto

o infinito sou eu

teses e mais teses

todas à procura

do infinito




19

BEM RARÍSSIMO




o silêncio

como

a amizade

é

um bem

raríssimo

respondeu

o poeta

e

eu

agradeci

com

o olhar




20

JAZZ TIME




um dia voltaremos

a encontrar-nos

num fado da amália

num samba da elis

num poema de gedeão

num solo de santana

num filme de trufaut

ou talvez em montreux

essa cidadezinha suíça

que é uma referência

de encontros súbitos

isso em montreux

para apresentar-te

os meus amigos

que jazz time

gostam de improvisar

fica combinado

no próximo ano

em montreux

nos encontramos



21


AO POETA DO AMOR E DA LUTA,

ANTÓNIO GOUVEIA

(Na Blogosfera: António Melenas)




já não sou eu

que aqui estou

faltas cá tu

falta-me

um bocadinho

de mim

já não sou eu

que cá estou

continuarei

sim continuarei

a escrever-te

cada vez

mais baixinho

e em tom lento

que a vida

se é caminho

só mesmo

exaltada fica

quando lutamos

com o amor

que revelaste

já não sou eu

que estou

por aqui

faltas cá tu

por inteiro




(Para ouvir textos de António Melenas, na voz de Luís Gaspar,

aceda a:

Standard Podcast [16:20m]: Hide Player | Download

em

http://www.estudioraposa.com/index.php/18/03/2008/

lugar-086-antonio-melenas/

e em:

http://www.estudioraposa.com/index.php/11/01/2008/15



22


SILÊNCIO



o silêncio

dos poetas

como tu

é sempre

branco

alvura

onde

novas

palavras

crescem

des

me

su

ra

da

men

te

até

à

terna

idade

(Ainda, para o António Gouveia.)





23

DE QUE RIO VIESTE




de que rio vieste

tu

para te encontrar

nesta margem

o sonho largo

os olhos inquietos

na boca

o espanto

de

que

nascente

brotaste




24

SENTIDOS




perdi

os óculos

mas

continuei

a sentir

as tuas

duas

mãos

até

de olhos

fechados




25

POESIA





agora

os dias

são

maiores

posso dar-te

mais luz

estender-te

os braços

convidar-te

para jantares

poentes

bonitos

e depois

ficar

a ver-te

a saboreares

docemente

Poesia




26

OS PÁSSAROS



Do

ninho

à

represa

vão

apanham

uma

minhoca

Ao

ninho

regressam



27

MILAGRE





saí

de

casa

entrei

no

quintal

a couve

estava

triste

fiz-lhe

uma

festinha

sorriu




28

GRÃO de AREIA



olha

já

não

há

cais

para

os

sonhos

mas

a

sul

vou

colher

um

grão

de

areia

só

para

ti




29

LITERATURA





abri

o

livro

fechei-o

da

gaveta

tirei

a

palavra

amor





30

PALAVRAS




abri

o

livro

fechei-o

da

gaveta

tirei

a

palavra

amor



31

UMA VEZ





morremos pela boca

morremos pelo coração

morremos pela cabeça

morremos pelo pulmão

morremos aos poucos

morremos de emoção

morremos de repente

morremos a destempo

morremos contra a mão

morremos contra a alma

morremos uma vez só




32

O TEMPO




O relógio

não olha

para mim

eu

pago-lhe

com

a mesma

moeda




33

LÁGRIMAS





des

cul

pa

a

sub

li

ma

ção

eu

es

ta

va

mes

mo

a

cho

rar



34

IDEM





Por vezes

são

as lágrimas

que

nos salvam

coisas simples

que no dizer

do poeta

não passam

de água

e

cloreto

de sódio




35

QUASE





Quase perfeita

a razão do gesto

que não aconteceu.

Quase perfeita

a memória do gosto

que se perdeu.

Quase perfeita

a mão que escreveu

e não rasgou

palavras amargas.

E a doçura ali tão perto:

ali mesmo ao lado.

Metade da alma

partida,

perdida...

Quase perfeita,

a intenção!

***************

in, pucaradojaquim.blogspot.com




36

LE TEMPS QUI PASSE






Tudo passa

disse ele

pois

disse

ela

e não

alcançaram

o último

degrau

azul

que a nuvem

que

passava

levou

consigo

inutilmente




37

A ESCRIVANINHA DO POETA






Sentou-se

levantou-se

deu

três voltas

ao

quarto

crescente

e

voltou

escreveu

desisto

de

entender

este

mundo

tão

pouco

global

. ponto

ponto

final .

. final

ponto

pronto

____


Hoje,

não há estrelas

para ninguém!

Morreu mais um poeta!

Pronto.



38

MUSICAL





cons

truí

mos

a

nossa

casa

sobre

ruí

nas

e

ela

não

veio

abai

xo


@joaquim alves

in "Terra Branca"




39

LADO ESCURO





Regressei

à varanda

estive à

tua espera

e não

te vi

será que

foste

pelo lado

escuro

esta

noite


******************

@joaquim alves in "Poemas à Janela"




40

PERSONALIDADE





Cabeça erguida

voz segura

alma calma

olhar vago

sentir profundo

fingimento

nenhum

levantou-se

disse boa-noite

e saiu

para não mais

voltar

*******************

@joaquim alves in "Poemas à Janela"

.

.

.

.

.

.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

UMA TELA

*****






Ficha Técnica



Título: TIME
Autor: Joaquim Alves
Assinatura: Manus
Técnica: Acrílico sobre tela, com colagem
Dimensões: 120x120 cm
Data: 1995
Propriedade: Coleccionador Particular

Notas: Homenagem a Sonia e Robert Delaunay,
casal amigo do nosso Amadeo de Souza-Cardoso,
nascido em Manhufe (Amarante), em 1887,
e um dos nossos primeiros modernistas.
Viveu em Paris, no início do século vinte,
onde conheceu muita gente do movimento,
e veio a morrer - jovem - de gripe pneumónica
(tb conhecida como "gripe espanhola"),
na sua terra natal, em 1918.

*
Muito mais haveria a dizer, mas ficam estas dicas,
para que - quem quiser - descubra o nosso Amadeo,
que amigo também foi de Amedeo Modigliani,
nascido em Livorno (1884).




terça-feira, 25 de março de 2008

MORREU MAIS UM POETA





*****


AO POETA DO AMOR E DA LUTA
ANTÓNIO GOUVEIA
(Na Blogosfera: António Melenas)




já não sou eu
que aqui estou

faltas cá tu
falta-me
um bocadinho
de mim
já não sou eu
que cá estou

continuarei
sim continuarei
a escrever-te
cada vez
mais baixinho
e em tom lento

que a vida
se é caminho
só mesmo
exaltada fica
quando lutamos
com o amor
que revelaste

já não sou eu
que estou
por aqui
faltas cá tu
por inteiro




________________________


Para ouvir textos de António Melenas, na voz de Luís Gaspar,
aceda a:
Standard Podcast [16:20m]: Hide Player | Download
em
http://www.estudioraposa.com/index.php/18/03/2008/
lugar-086-antonio-melenas/
e em:
http://www.estudioraposa.com/index.php/11/01/2008/15

quarta-feira, 12 de março de 2008

BLOG

*****










Citando-me
atropelei-me
fui parar ao hospital

operaram-me

depois
atropelaram
o médico




quarta-feira, 5 de março de 2008

MÁGOAS DO TEMPO



Para
Simone de Oliveira

Hoje, pedindo desculpa por esta interrupção,
Tenho que falar da Simone. Da nossa Simone.
Portuguesa de Gema e de Gama, cantora, setenta anos de idade,
intérprete de mil textos de poetas grandes da mal estimada língua
portuguesa, mãe, amante, avó, além de fonte de milhões de emoções,
comemora, agora, cinquenta anos da sua carreira artística.
O texto que se segue é para SIMONE DE OLIVEIRA,
Mulher-coragem à portuguesa.

Mágoas do tempo

Olho para ti
e vejo
a tua alma

dorida
sofrida
maltratada

olho para ti
e
choro
baixinho

Este texto foi-me enviado pelo Joaquim Alves e porque estou com ele na admiração pela Simone aqui faço das dele, as minhas palavras.

Luís Gaspar, in
http://www.truca.pt/fofocas.html

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

EXPOSIÇÃO DE PINTURA

*





ENSAIOS

Este o título da exposição
de Joaquim Alves que,
neste momento,
se encontra patente ao público,
em Monte Abraão (Queluz)
no Café/Restaurante O REBELO,
Rua Ruy Belo,
próximo da Avª da República.

Ver para crer.