segunda-feira, 14 de maio de 2007

DESTINAÇÃO


Pintura em acrílico (65x50 cm) sobre papel @manus 1988



o que seria de nós
sem computers
sem auto-estradas
sem portagens
sem aviões
sem engarrafamentos
sem céu cinzento
sem inferno

o que seria de nós
sem relógios
sem hora de ponta
sem semáforos
sem supermercado
sem multibanco
sem euros
sem petróleo

o que seria de nós
sem a lua
sem o sol
sem bússola
sem andorinhas
sem primavera
sem jogos
sem pimenta

o que seria de nós
sem dor
sem esperas
sem futuro
sem olhos
sem mãos
sem sonho
sem quimeras

o que seria de nós
sem bi
sem carta
sem livros
sem cds
sem ouvidos
sem música
sem cabelos


o que seria de nós
sem nada
sempre à espera
à espera
sempre à procura
à procura da perfeição
de nós

QUINHENTOS


Pintura em acrílico (120X120 cm) sobre tela @manus 1995

Texto para a TRUCA, que continua a ser uma querida,
com quinhentas (imaginem!), sim, 500 edições.
Bem-hajas, sempre, Luís da Truca e da Raposa.
Vale a pena meter o bedelho. Juro!

http://www.truca.pt
http://www.estudioraposa.com/






LUGARES


começar é tudo sim é tudo
é o contrário do sabor a nada
da hesitação a murmúrios mesmo lágrimas

começar é uma aventura
com movimentos sempre infantis
como a vela de um barco que muda
de acordo com o vento
sem nunca esquecer o leme

percebo pouco de navegação
e se assim não fosse e tivesse dinheiro
já tinha comprado um catamaran só para me divertir
sem quaisquer pretensões olímpicas

é por isso que prefiro continuar em terra
onde as sementes dão flores
e os perigos não são menores
em todas e quaisquer esquinas
e cruzamentos

em cada mudança de rumo
há sempre perigo de morte e de vida
acho e penso eu que sou optimista
e até gosto deste sentimento ocidental português

um risco para pisar o limite impossível
e assumir que se pisa
bem sei





quinta-feira, 10 de maio de 2007

AVISO À NAVEGAÇÃO








Sem título






Nem desconfiava
desta antiga desafinação
inventor fica calado
antes de ser mercador
talvez seja injusto
neste comentário
só que tão queimado
pelo silêncio optei
não quero qualquer vingança
já que disso nada sei
doem-me logo os dentes
de pensar essa hipótese
deixem-me como sou
mesmo em manhãs de nevoeiro
suponho que dom sebastião
não regresse
por uma dor de simples humano
vivam pois devagar
que a pressa é má conselheira
vive numa floresta abandonada
e já lhe fizeram o funeral
só não percebo por que andam ainda
a elogiar a sua sabedoria
devagar é que se pode ser feliz
o contrário é morrer na estrada
cá por mim prefiro a praia
de preferência
a tentar salvar alguém
até porque além das queixas do jorge
só ouvi elogios ao sueste
mergulhamos na fuzeta
e vamos parar a olhão
dispensando tamanho exagero
comemos perceves na salema
e vamos de visita à falésia do infante
um minuto depois
ou apenas ao serão

AS ÁRVORES



&

AS PESSOAS


Nunca o saberei. É difícil adivinhar o que vai na alma do outro.
Somos pessoas vivas. Temos sentimentos. Sentimos frio, medo e fome.
Somos de carne, osso e sangue. Apesar do volume d’água.
Provavelmente, por isso. A água é primordial. O fogo também.
Nunca o saberei. Talvez por tudo isso e outras coisas mais.
Onde se esconde a água, o sonho, o mais profundo mistério da vida?
Não há razão para a esperança. Adivinho-lhe apenas o sentido...
Os tempos que correm não são da nossa natureza. Apresentam-se
calculistas, previstos, enumerados. São da Era do Insensível,
Programada e Operacional. Simplesmente, e em nome da mão,
quando a energia falha, não funciona.
É essa a diferença. A máquina depende da electricidade; o eu-pessoa depende,
apenas e só, da sua própria energia.
Nem destino, nem promessa. Em cada dia que nasce, é a capacidade
de sonhar que comanda a vida. É o querer enorme e magnífico que emerge
do silêncio e marca a identidade dos movimentos.

*
As árvores são seres vivos. Agitam-se, crescem e dão flores, quando é esse
o seu destino, ao ritmo do tempo.
As pessoas crescem, movem-se, ausentam-se, agitam-se e, até, fogem,
de acordo com as circunstâncias.

*
Não há razões para duvidar das pessoas.
Mudam de morada. Esquecem-se de o comunicar.
Sonham o melhor dos mundos.
Esquecem-se de o procurar. E, um dia, morrem.
As árvores, pelo menos, não fogem. Quando morrem, morrem de pé.
E não se nota tanto!

quarta-feira, 9 de maio de 2007

A PROMESSA

Sebastião da Gama, José Régio e Cristovam Pavia
Um trio de luxo que não se pode rejeitar em lado algum.







O Sonho


Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.


Sebastião da Gama
in " Pelo sonho é que vamos "

O VIOLINO DE GARDEN



Era de infinito que eu estava a falar
afinal o infinito é tão simples como
as preocupações diárias e o pão de azeite
para quem ama a serra de azeitão
mais conhecida por arrábida
é tudo relativo na teoria de eistein
curiosamente também no dia a dia da gente vulgar
é claro que tudo o que está em cima
é semelhante ao que está em baixo
e versa-vice de algum modo de aproxima
mas prefiro o som do violino
que juntamente com o do piano
alegram a vida e a alma
é só experimentar juntá-los
noites após noites e em local adequado
para sonatas e melodias de encantar
como as de alguns criadores sem nome
já que estamos no século do futuro
e o futuro nunca teve nome
vem aí devagarinho
só os homens têm pressa
o futuro nunca é mensurável nunca
mesmo com a agitação dos dias
a inflação e o caderno de contas nacionais
o futuro é o presente melhor
à partida
à chegada revela-se o mesmo de sempre
a corda na garganta
as contas sempre difíceis de manter em dia
e aquela chatice do tempo
ou melhor dizendo da sua falta
é isto a vida dos homens
deixo para uma mulher falar das mulheres
sempre insatisfação
e o infinito a espreitar sempre sobre a nossa cabeça

terça-feira, 8 de maio de 2007

FIGURA



Já não sei
onde era princípio
e fim
nunca saberei.
Já não sei
como começou.


Do começo do caminho
até ao fim da estrada,
nada saberei.
E voltar atrás
nada resolve.


Vou no vento
na tempestade
da montanha.
Conheço o musgo
e o gelo.
De nada me vale
conhecer.


Estou
onde a vida
se escapa
entre os dedos
E

a visão
da alma
me salva


Perdi-me
e
não
sei
por
quê